“— GRRR-HÃÃÃM-MMM-M!” William Borucki emitiu um uivo primal característico dos clãs Wookiees do planeta Kashyyyk; como tinha aprendido em Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança. Tinha plena consciência de que todo mundo o admirava e invejava, e que só precisaria de um simples e decisivo sinal para esfregar na cara de todos aqueles filhos da puta, sua genialidade pela quinquagésima quinta vez. Era um homem perigosamente grande; obeso-mesomorfo, sempre suando demais por trás dos óculos de lentes permanentemente engorduradas; Astrônomo, punheteiro e geek da Agência Espacial Americana há duas décadas. Aquela manhã afastou os cotovelos timidamente, aguçando o olfato. Estranhou que estivesse fedendo antes mesmo da caminhada até a máquina de doces que por alguma razão pretensamente desconhecida tinham levado para o segundo andar. Fungou e franziu o cenho ainda sem entender o que estava acontecendo. “Tou fedendo a bosta?” Caminhou pela sala sacolejando os cento e vinte e sete quilos, fungando e rinchando como um cão de caça velho e gordo, levou poucos segundo para entender que a causa do terrível fedor de bosta brotava daquela odiosa mancha-creme que crescia no canto do teto a cada descarga dos filhos da puta no terceiro andar. Resmungou um terço dos palavrões que conhecia, abrindo e fechando gavetas – “Aí está você!”, disse brandindo o spray purificador de ar, antes de esvaziá-lo contra a mancha-creme imaginando que era uma daquelas baratas-mutantes que preferiam visitá-lo nas noites quentes. Voltou à mesa rangendo as solas dos tênis gastos no ponto em que o peso e a gravidade trabalhavam juntos; meteu o vidro de spray no lixo e passou os olhinhos de perco pelos dados que apareciam no monitor – O rosto bolachudo e escarlate contorceu-se até quase todos os dentes aparecerem no espaço de um único sorriso, e novamente uivou – GRRR-HÃÃÃ-MMM-M!’ como quando se transformava em Chewbacca para a Convenção de Guerra nas Estrelas. Resistindo duras horas dentro da roupa peluda há muito impregnada de suor e chulé. Foda-se a mancha no teto; fodam-se aqueles filhos da puta cagões do terceiro andar; Foda-se tudo – Foda-se! Foda-se! Foda-se! Uivou vitorioso – GRRR-HÃÃÃ-MMM-M!’ Legitimando a dramaticidade e importância de sua mais recente descoberta como astrônomo da Agência Espacial Americana. Há 31 milhões de quilômetros da Terra o telescópio Chewie-12 detecta o quinquagésimo quinto planeta no sistema de Chewie – E o que fazia William Borucki espumar de felicidade, era o simples e diga-se de passagem “trivial” fato das condições favorecerem a existência de água em estado líquido na superfície do planeta. Borucki enxugou o rosto com o lenço que fez surgir do bolso como num passe de mágica. “Zona habitável” – piscavam os dados no monitor – “Zona Habitável! Zona Habitável! Zona Habitável!” repetiu sentindo os batimentos cardíacos na ponta dos dedos. Com a mão livre, prendeu o telefone entre o ombro e seus múltiplos queixos e com os dedos nervosos discou os três números do ramal do terceiro andar. FO-DAM-SE!
(Capítulo Um - Cavalos-marinhos Selvagens na Cauda do Cometa Rasante)